INTERPRETAÇÃO DE ENZIMAS E OUTROS TESTES DE FUNÇÃO HEPÁTICA

As determinações bioquímicas utilizadas fornecem um parâmetro estático do grau de lesão hepática mas pouco contribuem para avaliação da reserva funcional.

Transaminases (AST e ALT)
ALT é encontrada em alta concentração nos hepatócitos e muito pouco em outros tecidos e portanto é considerada específica de lesão hepatocelular.
AST tem distribuição ampla, sendo encontrada nas hemácias , músculos estriados e coração.
ALT é mais encontrada no citoplasma enquanto AST é encontrada no citoplasma (70%) e na mitocôndria (30%). Ambas têm meia vida de 17 a 47 horas.
Ambas são liberadas na circulação quando há apoptose (morte) do hepatócito ou alteração da permeabilidade da membrana citoplasmática em processo de lesão ainda reversível.
Os níveis destas enzimas não se prestam à avaliação prognóstica.
Em hepatites virais, ALT > AST. Algumas hepatites tóxicas tem níveis de AST > ALT indicando lesões mitocondriais. Na lesão pelo álcool há indução mitocondrial e AST > ALT.
Níveis baixos em lesões hepáticas podem ser encontrados em pacientes dialíticos.

Bilirrubinas
É o principal metabólito da heme, produto da degradação da hemoglobina (85% da produção), mioglobina e citocromos.
Sua conjugação ocorre no fígado sob ação da glucuroniltranfesrase formando bilirrubinas direta (conjugada – não ligada a albumina) e indireta (não conjugada – ligada à albumina).
Nota-se icterícia com BT > 2,5 a 3 mg/dl.
Aumento de BI indica aumento da oferta de heme (hemólise, eritropoiese ineficaz, reabsorção de hematomas) ou alterações na conjugação. A causa mais comum é a Síndrome de Gilbert, presente em 3 a 8% da população.
Aumento da BD indica quase sempre disfunção hepatocelular ou biliar.
Colestase é definida como uma condição anatômica ou funcional na qual há deficiência de excreção dos componentes da bile.

GamaGT
enzima ligada às membranas celulares sendo que 80 a 90% da atividade enzimática ocorre no epitélio biliar.
É sensível mas pouco específica para doenças hepáticas pois pode aumentar em obstruções biliares , pancreatites (está presente em pequena quantidade no pâncreas) , hipertireoidismo, artrite reumatoide e IAM.
É facilmente induzida, aumentando na ingesta de álcool, medicamentos ou em inflamações agudas e crônicas do fígado. Tem meia vida de 10 dias.
É a única enzima que aumenta com o uso crônico do álcool.
Elevações acentuadas (de até 70 vezes) podem ser encontradas em doenças obstrutivas do trato biliar (ex: atresia de vias biliares, cisto de colédoco, colestase intra-hepática-Síndrome de Alagille, deficiência de alfa-1-antitripsina, colestase transinfecciosa, hepatite alcoólica, cirrose biliar primária ou secundária , colangite esclerosante primária ou secundária).
Nas hepatites agudas virais, exceto nas formas colestáticas, não ultrapassa 10 x o LSN.
Nas hepatites crônicas tem elevação discreta e correlaciona-se com a intensidade da inflamação e da fibrose.
Em pacientes com insuficiência hepática terminal tem sua síntese diminuída.

Fosfatase Alcalina
Enzima de função desconhecida. Está presente em vários tecidos (membranas canaliculares dos hepatócitos, células da mucosa intestinal, túbulos proximais renais , placenta e leucócitos). Sua atividade sérica deriva de 3 fontes : fígado , ossos e trato gastrointestinal.
Aumenta nos processos obstrutivos de vias biliares intra ou extra-hepáticas, por aumento de sua síntese hepática uma vez que o aumento da concentração de sais biliares aumenta a produção de FA.
Pode cursar com níveis baixos no hipotireoidismo, anemia perniciosa, deficiência de zinco e na forma fulminante da doença de Wilson.

Albumina
É a proteína mais frequente na circulação e responsável por 75% da pressão oncótica plasmática.
O fígado é o único sítio de produção e fornece 12 a 15 g / dia.
Tem meia vida de 20 dias, razão pela qual não há redução nos quadros agudos e não é um bom teste de função hepática nestas situações.
A pré-albumina é sintetizada no fígado e tem meia vida de 1,9 dias.

Tempo de Protrombina
A coagulação é um processo que envolve 13 fatores, sendo o fígado responsável pela síntese do fator I (fibrinogênio) , fator II (protrombina), fator V , VII , IX, XII e XIII. Apenas o fator de von Willebrand e as proteínas fibrinolíticas não são sintetizadas no fígado.
Utilizado para avaliação das vias extrínseca e comum da coagulação.
A presença de resposta à administração de vitamina K indica colestase e a ausência de resposta indica insuficiência hepatocelular ou coagulopatia de consumo.

INR
é calculado com o valor do TP paciente sobre o valor de uma média da população.
Importante para avaliação do e para o tratamento do hepatopata,
Fator V e Fator VII

Fator V – Produzido exclusivamente no fígado e o mais acometido nas hepatopatias agudas ou crônicas. Assim, sua deficiência é considerada um indicador de má função hepática, sendo empregada como critério prognóstico para indicação de transplante na hepatite fulminante.

Fator VII – mais senível que o V mas pouco utilizado na prática clínica.

TESTES DE AVALIAÇÃO DA RESERVA FUNCIONAL HEPÁTICA

A administração de compostos metabolizados pelo fígado pode fornecer uma avaliação dinâmica da capacidade metabólica.

Depuração de Cafeína
Depende exclusivamente do citocromo P450 resultando em metabólitos urinários de metilxantinas.
Teste respiratório após administração oral de cafeína marcada com carbono 13, sendo feita coleta de amostras de ar 1 h após administração.
É um bom indicador da função hepática global mas não é superior à classificação de Child-Pugh em adultos.
Pouco emprego clínico.

Depuração de Antipirina
Também depende do metabolismo do citocromo P450.
Absorvida após ingesta oral e não se liga a proteínas plasmáticas.
Calculada pela coleta de diversas amostras após ingesta.
Pouco emprego clínico.

Teste de Depuração do Verde Indocianina
Corante de escolha para avaliação do fluxo hepático na ausência de colestase. Não sofre transformação química e é rapidamente excretado pelo fígado. Medido por densitometria no dedo ou orelha ou dosagem no sangue por espectofotometria 2, 4 e 6 minutos após infusão.

Teste de Eliminação de Galactose
A eliminação de galactose é feita pela galactose-1-fosfato no citoplasma dos hepatócitos e seu desaparecimento no sangue está portanto influenciado pela quantidade de hepatócitos funcionantes.
O teste é feito pela administração IV ou oral de uma solução de galactose, medindo-se sua concentração no plasma ou pelo teste do CO2 expirado.

Teste de Excreção da Bromossulfaleína (BSP)
A BSP é um corante utilizado como bom indicador da disfunção hepática.
Após injeção intravenosa, liga-se à albumina, é transportado para o interior do hepatócito, armazenado no fígado, conjugado com glutationa e excretado na bile.
Utilizado para diagnóstico da Síndrome de Dubin-Johnson diferenciando-a da Síndrome de Rotor.

Proposta para Investigação de Alterações de Exames do Fígado
1) Elevação de AST sem elevação de ALT – possível causa não hepática
2) Elevação de AST e ALT > 5 vezes – lesões agudas : hepatite viral , medicamentosa, isquemia , hepatite autoimune
3) Elevação de AST e ALT < 5 vezes – ALT > AST – esteatose , hepatite crônica , medicamentosa, hemocromatose , doença celíaca
4) Elevação de AST e ALT < 5 vezes – ALT < AST – hepatite alcoólica , cirrose hepática, causas não hepáticas : exercícios físicos , miopatias
5) Elevação de FA com elevação de GGT < 3 vezes – doenças hepatocelulares
6) Elevação de FA com elevação de GGT > 3 vezes – obstrução biliar , CBP, CEP , Doenças Infiltrativas (metástases , linfomas)
7) Elevação de FA sem elevação de GGT – possível causa não hepática – doença óssea ou intestinal
Elevação de Bilirrubinas com elevação de FA e GGT – icterícias obstrutivas intra ou extra-hepáticas
9) Elevação de Bilirrubinas com enzimas normais (AST,ALT,FA,GGT) :
a. Indireta > direta com BT < 6 mg/dl – Síndrome de Gilbert
b. Indireta > direta com BT > 6 mg/dl – Síndrome de Crigler Najjar , Hemólise
c. Direta > indireta – Síndrome de Rotor ou Síndrome de Dubin-Johnson

2018-08-01T17:02:09+00:00 01/08/2018|Doença|